Porque a vida a dois não é fácil?

A vida a dois não é nada fácil!

A correria do dia a dia permite que muitos casais se afastem e acabem se desentendendo até mesmo por falta de comunicação.. justamente quando poderiam ter momentos de paz, tranquilidade e amor, tudo se torna em momentos estressantes e com muitos desencontros, justamente por não saberem mais como se comunicar.

Quando não nos comunicamos deixamos que a rotina tome conta de nosso relacionamento, não paramos para conversar e nos entendermos, mas apenas “vivemos por viver”. Gosto de usar essa expressão porque é a partir dela que conseguimos compreender como surgem os conflitos do casal. Quando se “vive por viver” passa-se por cima como já dito no post anterior, da particularidade/individualidade de cada um que é composta pela sua bagagem emocional, sua história e tudo que o compõe como pessoa. Então, quando se “vive por viver” não é possível respeitar as particularidades de cada um, ou seja, as diferenças e nem a opinião do um do outro,  o que costuma prejudicar o sistema familiar como um todo (incluindo os filhos).

Precisamos lembrar que essa particularidade pode estar carregada de traumas, e que isso exige um cuidado mais cauteloso e muita paciência na comunicação . Quando falamos de “traumas” não estamos nos referindo apenas a situações de grande sofrimento emocional mas de toda e qualquer experiência que tenha sido negativa o suficiente para interferir na forma como cada parceiro interpreta a realidade de cada área da sua vida amorosa (ex. afetividade, confiança, sexualidade, machismo/feminismo, etc). 

Portanto, na maioria das vezes, esses traumas acabam dificultando ainda mais a comunicação entre os parceiros, fazendo com que, em muitos casos, seja necessária a intervenção de uma terapia de casal para os ajudar e ensinar os parceiros a se comunicarem e a resolverem a situação sem machucar um ao outro. Por exemplo, suponhamos que o parceiro tenha passado por algumas situações em sua história de vida que deixaram marcas negativas como ver seu pai agir com grosseria de forma corriqueira e até mesmo agredir fisicamente sua mãe. Pela psicologia, esse sujeito vai repetir este “padrão de comportamento”, que é nada mais do que copiar este modelo de vínculo que acabou sendo internalizado (de forma inconsciente – mesmo que ele não deseje e não perceba) da relação dos seus pais. A internalização desse padrão de comportamento, aprendido com suas experiências familiares irá influenciar a forma pela qual esse parceiro irá relacionar com seu cônjuge. Assim, por mais abusivo que possa o comportamento dos pais, esse modelo de relacionamento e as experiências vividas pelos filhos tornam-se marcas emocionais que são internalizadas, e podem fazer com que o indivíduo torne-se psicologicamente suscetível a repetir o que vivenciou em sua história.

“Então quer dizer que eu repito a forma de me relacionar como o dos meus pais na minha relação?” Na maior parte do tempo sim. Por isso usei a expressão “viver por viver” neste post, porque quando eu não me observo e não reconheço meus comportamentos, prestando atenção primeiramente em minha forma de agir e depois na do meu parceiro, eu acabo não conseguindo reconhecer o modelo de vínculo que internalizei por meio das experiências familiares e, assim, torna-se mais difícil encontrar as possíveis falhas nesse modelo. Consequentemente, essa falta de percepção do funcionamento psicológico da vida a dois acaba prejudicando a própria relação , pois os parceiros acabam não conseguindo se respeitar ou se comunicar, justamente pela dificuldade de identificar e tolerar as fragilidades um do outro.

Usando este mesmo exemplo, mas olhando para o outro participante da relação: o parceiro do outro lado da relação talvez apenas sinta que tais atitudes machucam, mas muitas vezes tem grandes dificuldades em reconhecer e não “tem forças” para comunicar e propor que possam, juntos, buscar uma solução. Assim, ambos se machucam e se chateiam cada vez mais. Esse “não ter forças”, pode ser decorrente das marcas da sua história de vida, ou seja, pode ter sido proveniente de um modelo de se relacionar que foi aprendido durante experiências como receptor de agressões e abuso, e que, por sua vez,  provavelmente, também pode ter sido internalizado nas primeiras experiências externas da família, não deixando de ser também uma fragilidade: portanto, sofre-se duas vezes; por ser agredido verbal, física ou sexualmente e novamente por não conseguir se defender dessas agressões. Quando digo modelo de relacionamento “aprendido”, quero dizer que a aprendizagem pode ocorrer de forma consciente como por exemplo aprender a ler, mas também de forma inconsciente na qual o conteúdo é captado e registrado por nosso cérebro sem mesmo que queiramos e é por isso que acredito que o termo “internalizado”  costuma se encaixar melhor nesse contexto da formação de nosso conteúdo interno.

Assim, os dois protagonistas da relação acabam sendo vítimas de histórias não funcionais internalizadas do passado, transpondo para a sua relação atual o que foi internalizado como filho por meio da relação dos pais ou seja, repetindo essa forma prejudicial de se relacionar em sua relação conjugal atual.

Compreendo que não e fácil conversar sobre alguns temas no relacionamento, mas LEMBRE-SE de que , quando você deixa de comunicar ao(a) seu(sua) parceiro(a) os comportamentos dele(a) que te magoam, muitas vezes você acaba sabotando as sua próprias vontades, ou seja, acaba passando por cima da sua individualidade , o que contribui para diminuir a sua autoestima e sua autoconfiança.

Por esta razão, a comunicação tem um papel essencial no relacionamento: é ela que tem a função de unir os participantes da família como um todo, pois se isso for feito apenas de um dos lados da relação, o sistema familiar pode se romper.

Por isso, realmente, a comunicação no casamento ou em qualquer outro relacionamento não é fácil ! São dois modelos de vínculo internalizados diferentes, postos frente a frente, em ação, numa única relação! Que sopa de histórias não é mesmo?

Mas é assim mesmo! Mas nem todas as nossas marcas internalizadas são negativas; abstraímos também muitos pontos e formas de conduta positivas de nossos familiares e é por meio delas que precisamos nos fortalecer,  para que estas possam se sobrepor aos comportamentos prejudiciais e possam nos ajudar a superar as fragilidades de ambos os parceiros. Com certeza você já ouviu aquela famosa frase “juntos somos mais fortes”, certo? E realmente somos, pois quando um ajuda o outro nos pontos em que mais precisam de atenção e cuidados, o casal se torna o PROTAGONISTA DE SUA HISTÓRIA CONJUGAL, e passa a não mais “viver por viver”, mas sim a cuidar um do outro e construir , juntos, uma nova história.

Psicóloga Brenda Chaves

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